Um Presente de Páscoa

presente de páscoa

“Sentamos e comemos em silêncio, apreciando aquele sabor forte, viciante e totalmente novo. E pelas circunstancias o batizamos de ovo de páscoa.”

Naquele dia como todos os outros, cheguei correndo da escola, guardei a mochila e fui para a cozinha. A fome era tanta que sentia o estômago nas costas. Por mais que eu tentasse focar em outra coisa, só o almoço ocupava os meus sentidos. E assim nem reparei que estava tudo muito quieto.

Na cozinha, a mesa que sempre me esperava com o almoço já servido, desta vez tinha outro cenário. Em volta dela todos parados olhando para um embrulho. Papai e mamãe à frente, encostados na mesa, e meus irmãos se amontoando, procurando um lugar diante daquele objeto.

Presente de páscoa não precisa ser chocolate…




Com toda a concentração, ninguém nem percebeu minha chegada. Comecei a abrir espaço, empurrando de pouco em pouco até conseguir uma boa vista para o acontecimento.

Meus irmãos me olharam feio, mas como estávamos diante dos pais, não podiam fazer nada. Como caçula que era, com certeza eu seria justificado e protegido. Depois, isto me renderia alguns beliscões. Mas tudo bem.

Logo vi que se tratava de um presente, vindo pelo correios. Mamãe por fim pegou um cartão que estava colado no pacote e deu para Pedro, meu irmão mais velho, ler. Os ouvidos e os olhos de todos fitados nele, naquele momento o cartão retinha o papel de coisa mais importante do mundo.

Pedro vendo nossa impaciência resolveu fazer daquele, um momento solene. A cada palavra lida vagarosamente, ficávamos ainda mais ansiosos. Queríamos pular todas as preliminares.

Tia Zenaide, quem enviou o pacote, era a tia distante, morava em outro estado e a víamos somente uma vez por ano quando vinha nos visitar com toda a sua família.

Na carta, como era bem seu estilo, deu a noticia em detalhes dos membros de sua família e depois quis saber especificamente de cada um de nós. Por fim se dignou a dizer:

Segue um agradinho pros meninos.

Feliz Páscoa!

Tia Zenaide.

A páscoa já havia passado a um bom tempo, disto eu tinha certeza, porque no interior, esta é uma data que criança jamais esquece. Não pela páscoa em si, mas porque ela vem depois da sexta feira santa, dia de silêncio e penitência. Ou seja, um dia péssimo pras crianças.

Tudo neste dia era terminantemente proibido e até a nossa respiração incomodava os adultos.

Na páscoa, dê presentes que marcam…

Mas aí chega o sábado, dia de pé de moleque, doce de leite e muitas outras gulodices, depois da bronca, é lógico, uma vez que na sexta feira nem isto era permitido, apesar de não faltar merecimento de nossa parte.

Pedro terminou de ler e meus pais começaram a discutir e comentar a carta.

O que havia de ser comentado naquela carta! Parecia que eles faziam de propósito para nos deixar ainda mais ansiosos, ou era uma tática para aproveitarmos aquele momento ao máximo, uma vez que não era comum recebermos presentes.

presente de páscoa

Já estávamos em desespero de tanta ansiedade, quando papai começou a tirar a fita adesiva do embrulho. Nossa vontade era rasgar aquele papel, mas tínhamos que esperar aquele processo.

O papel foi caindo, e deixando à mostra uma caixa de biscoito velha, que papai desmontou fazendo brilhar diante de nossos olhos um papel colorido e cheio de estrelinhas e coelhinhos.

Dentro tinha alguma coisa em formato oval, e um laço finalizava o presente.

Imaginei que fosse um carrinho pequeno para cada um de nós e uma bonequinha para a Nina.

Mamãe pegou o embrulho nas mãos e o apreciou por alguns minutos. Meu pai que parecia já estar ficando ansioso também, pegou-o das mãos dela e puxou a ponta da fita vermelha, desfazendo o laço e o papel se abriu caindo na mesa. Um ovo gigante prateado permaneceu em pé em cima do plástico.

Ela limpou as mãos no avental, pegou o objeto e tirou o papel prateado delicadamente. Ele se dividiu em duas partes marrons e de dentro saiu algumas balas.

Nossos olhares eram de decepção total. Mamãe para disfarçar pegou rápido as balas e dividiu entre nós. Duas pra cada um.

Todos saíram e foram procurar alguma coisa pra fazer, certamente pra esquecer a raiva que estavam de tia Zenaide. Eu fiquei ali, olhando para aquele ovo. Eu não entendia porque precisava um embrulho tão grande, de tantas camadas para esconder algumas balas.

Peguei uma das bandas e fiquei a olhar. Até que poderia dar uma boa brincadeira na areia.

Aquele esconde-esconde tinha sido de péssimo gosto, nas nossas brincadeiras, o barato estava em encontrar todo mundo, já esperávamos por isto. Ali não, da forma que tudo aconteceu não nos divertimos na busca, porque esperávamos pela surpresa no final, mas esta surpresa não veio, ou veio em proporções muito menores que nossas expectativas.

Levantei, pra colocar o ovo na mesa, porque a esta hora meu estômago já estava se lembrando novamente de que estava com fome. Olhei para as mãos e vi nelas uma sujeira diferente, marrom, grudenta. O ovo estava derretendo.

Ouvi os passos de mamãe vindo para a cozinha e num impulso de esconder que estava mexendo onde não me fora permitido, joguei o ovo na mesa e levei a mão à boca.

presente de páscoa1

Senti um sabor doce. Nesta hora me esqueci da bronca que poderia levar, peguei uma banda do ovo e levei até a língua, senti o doce ainda mais forte. Dei uma mordidinha e uma sensação gostosa me invadiu. Minha vontade era devorá-lo, mas ao invés disto gritei:

– O ovo é de comer!

Mamãe que já estava entrando na cozinha, chegou primeiro, e em instantes todos estavam ao redor da mesa novamente.

Ela como de costume, limpou as mãos no avental, mesmo não estando sujas, quebrou um pedacinho do ovo levou ao nariz, cheirou, depois passou a língua. Em seguida colocou na boca, mastigou de olhos fechados e disse:

É doce!

Meu pai que estava ainda desconfiado, assentiu com a cabeça:

É uma regra da natureza, se é doce, não é veneno.

Deu um sorrisinho e completou:

Este também não deve ser.

Mamãe parou, olhou para nós com suspense e disse:

Vamos comer!

chocolate

Todos avançamos, mas ela cerimoniosamente partiu um pedaço para cada um de nós. Sentamos e comemos em silêncio, apreciando aquele sabor forte, viciante e totalmente novo.

E pelas circunstancias o batizamos de ovo de páscoa.

Aquele dia jamais saiu da minha cabeça.

Crescemos, nos mudamos de lá, meus pais morreram, meus irmãos seguiram com suas vidas e eu nunca mais comi chocolate, para não apagar aquele sabor que guardo na memória.

presente de pasco

Só o seu sabor em si, me seria frustrante, porque esta emoção que guardo junto com a memória daquele dia é marcada por afetividade, por um sabor de descoberta, de novidade, de família, de infância que só o chocolate não seria capaz de proporcionar.

Esta é uma história de minha autoria. Uma forma de te desejar uma feliz páscoa. Espero que goste. Mas me diga: Você tem o hábito de presentear sempre com chocolates, na páscoa? Já pensou em livros? Pode ser um presente que marque para toda a vida. Vamos conversar?

Related posts:

Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

2 thoughts on “Um Presente de Páscoa

Eu adoraria saber sua opinião.