Instruções para Garantir Um Feliz Natal- O Conto

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Amora repassou todos os acontecimentos dos últimos dias. Algo de muito estranho estava acontecendo na cidade. Nas lojas nada de peru, nem músicas natalinas, nada de enfeites, nenhuma luz para piscar e encantar os olhos das crianças, que misteriosamente não acreditavam mais no papai Noel.

A cidade estava num clima diferenciado, adultos, crianças… ninguém estava ansioso pela chegada do natal, e a possibilidade daquela festa mágica se extinguir para sempre era real.

Mas aquela experiência de anos não estava apagada da memória das pessoas. No fundo havia uma luz, bastava acender o desejo de reviver aquela experiência. As pessoas sentiam falta da magia do natal, talvez não estivessem conscientes disto.

Mas algo já estava sendo feito por alguém. Mistério total, o que intrigava toda a cidade.

Um grande esqueleto de estrela apareceu misteriosamente perto de uma montanha e junto uma carta anônima com algumas instruções. Era um projeto de resgate do natal.

A carta deixava bem claro que o natal fora confiscado e resgatá-lo dependia única e exclusivamente da entrega de cada um, só eles seriam capazes de salvar aquela festa mágica.

E começaram a ler as instruções:

Ela, a estrela era dividida em espaços feitos á medida real de cada pessoa da cidade, e este espaço deveria ser preenchido com a imagem de cada um.

Cada pessoa deveria ir para casa, olhar para si, para a própria vida, seus anseios, suas angustias, suas conquistas…

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E construir um boneco com suas medidas e segundo a ideia que cada um fazia de si mesmo.

– Um boneco à minha imagem! – Pensou amora. – Isto vai ser moleza. O meu espaço reservado na estrela vai ser destaque total.

Amora olhou outra vez para a sua estatueta já pronta, como era artista plástica e tinha muitos talentos manuais, construiu-a rapidamente.

-Está linda, apoteótica, será com certeza o destaque da estrela. – Pensou enquanto pegava-a e saia apressada para o local da exposição.

O esqueleto da estrela era imenso e rústico, não era possível imaginar que dali sairia toda a beleza da cidade numa noite tão mágica, mas não havia outra opção senão acreditar e seguir as instruções.

Cada peça tinha que ser milimetricamente detalhada para ocupar exatamente seu espaço naquele grande projeto.

Amora encontrou o espaço com seu nome e tentou encaixar sua imagem e…

– Deve haver algum engano.

A sua estátua jamais caberia naquele espaço reservado para ela.

Mas as instruções eram claras, não havia engano e nem muito tempo, precisava voltar pra casa e se analisar melhor. Mas não fazia ideia de como poderia entrar ali, naquele espaço.

Pensou em encaixa-la em outro espaço, mas além de não servir todos já tinham seus donos e o único espaço vazio que precisava ser preenchido era o seu.

Voltou para casa e fez uma viagem para dentro de si, para conhecer melhor sua imagem e  refleti-la no boneco.

Tantos talentos que gostaria de ter, mas que não teve disposição para desenvolvê-los.

Dons que achava lindos, mas que definitivamente eram de outros e não seus.

Precisava se descobrir, seus dons natos, seus talentos desenvolvidos, e sua vocação mais profunda, sua grande razão de existir, seu real sentido de vir ao mundo.

Olhou novamente para sua silhueta, e então entendeu porque não se encaixou em seu espaço na estrela, estava totalmente diferente da imagem que via de si mesmo.

Começou a trabalhar seu retrato.

Colinas para rebaixar, vales para aterrar,  e cortou muitas arestas. Era o trabalho mais doloroso de sua vida, estava se reconstruindo, olhando para a sua imagem verdadeira e não a que criou no decorrer da vida. Mas se sentia cada vez mais real, mais consciente de si.

 No final se olhou novamente, agora era seu reflexo,  e viu que era linda, a visão deturpada de si fez com que ela não visse o que tinha de verdade, passou a vida assumindo características que não eram suas e escondendo outras que eram, mas agora estava ali, sem mais nem menos, na medida.

Olhou no relógio não dava tempo de experimentar se cabia, resolveu aproveitar o tempo para fazer mais uma revisão em si mesmo para descobrir se tinha mais algumas sobras.

Faltavam minutos para o grande momento, todos colocariam juntos suas bonecas e então saberiam se haviam resgatado o natal.

Pegou sua imagem, olhou para o espaço disponível…

A contagem regressiva começou:

            10………….9……………8

Seu coração batendo forte… começou a encaixar:

             7………… 6…………… 5

A cidade inteira silenciosa, será que conseguiriam:

            4………….3…………….2

Um estalo.

Uma luz radiante nasceu daquela estrela e como fogos de artifício subiu iluminando toda a cidade. No mesmo momento os sinos tocaram, as músicas natalinas encheram a cidade e o brilho trouxe novamente a magia do natal.

Uma onda de calor aqueceu o coração de todos, era o contágio daquela noite especial.

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Os que sofriam de algum mal, os que viviam na solidão, os que nem acreditavam em natal

Todos foram contagiados com aquela luz, que vinha da estrela. Das lâmpadas piscantes, das músicas natalinas, do papai Noel, mas principalmente da renovação de cada pessoa. Junto com a estrela, a cidade toda renasceu, se preparou da forma que realmente valia a pena.

Amora olhou para a montanha e não conseguia ver os detalhes de sua estátua, na verdade ela não conseguia nem vê-la naquele desenho, mas sabia que estava lá. Não tinha destaque, mas no todo seu brilho era muito maior, porque era um lugar que só poderia ser preenchido por ela, era uma peça fundamental, e o espetáculo só pode acontecer porque cada um se deu por completo, nem a mais, nem a menos, na medida.

E a cidade garantiu a magia do natal.

E você, tem uma boa estória de natal. Partilhe conosco sua experiência.

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

Eu adoraria saber sua opinião.