Solteira na balada – o conto

Cheguei à festa me sentindo estranha, por um lado poderosa, aquele vestido longo, salto alto, maquiagem ousada. Toda aquela produção não fazia mais parte da minha vida, foi embora quando mudei o meu estado civil.

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Nos seis meses de casada, assumi um estilo bem mais sóbrio, mais dona de casa. Mas separada a um mês, estava me sentindo livre, inclusive para investir em mim.

E ali era só o começo, iria retomar todos os projetos abandonados. Todo o tempo dedicado àquela segunda pessoa, Tadeu; e terceira pessoa, Tadeu e eu, seria agora só meu.

Logo no inicio da noite vi que estava sendo paquerada por um bonitão. Nem me dei ao trabalho de me fazer de difícil, afinal não estava procurando um marido.

Ele me chamou para dançar e eu fui. Musiquinha dengosa, corpinhos colados, estava bem saidinha para minha primeira balada depois da separação. Mas estava mesmo era curtindo, pra ser honesta achando meio estranho, mas ainda assim curtindo.

Rapaz atirado, daqueles que vai direto ao assunto, com mão bobas, bobíssimas, aliás.

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Tudo estava legal, mas eu não estava preparada para tanta pressa, até a velocidade três, talvez. Estava acostumada a muito cafuné, a um longo preparativo antes da festa, talvez até maior que a festa em si, mas eu gostava disto.

Me descolei um pouco dele para pedir menos velocidade, e parei olhando para um casal dançando coladinho, olhinhos fechados, sintonia total, pelo menos é o que parecia.

Tudo normal. Se não fosse o safado do Tadeu lá se esfregando com umazinha qualquer pouco tempo após nossa separação.

A cena estava ali, clara, na minha frente, Tadeu já estava com outra mulher.

Aquilo pra mim foi como uma espada no coração. Agora era pra valer: Eu era mesmo uma mulher separada.

Me virei para aquele desconhecido novamente e comecei a dançar. Aquela dança já não estava mais tão legal, a ideia de liberdade, de retomar os projetos, fazer investimento em mim, de dançar com um bonitão estranho, nada era mais tão atrativo assim, o próprio estranho já não parecia tão bonitão.

Continuei a dançar distraída, fora do compasso, evitando olhar para Tadeu, com medo de ver coisa ainda pior.

Quando a música já estava no fim, não resisti e olhei, ele estava segurando a moça pela cintura e ela se jogava para trás, numa finalização da dança. Nesta hora ele me viu, tomou um susto e soltou-a, a fulana só não se estabacou no chão, porque um rapaz a segurou.

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A música terminou e ficamos ali, parados e sem saber o que fazer. O desconhecido me trouxe uma bebida que eu bebi de um único gole.

O Tadeu em pé ao lado do balcão, e nossos olhos não saiam um do outro.

Iniciou-se outra música e quando o desconhecido estendeu a mão para me chamar, alguém me pegou pela cintura.

Aquele toque me era familiar, me virei, era Tadeu me levando para dançar. Nem sabia se devia, afinal estávamos separados, e eu estava ali exatamente para recomeçar a vida.

Mas, sinceramente, me sentia como que num pais estrangeiro, sem conhecer ninguém, sem falar a língua e de repente avista um conhecido, enquanto minha cabeça não conseguia pensar, meu corpo me puxava para os braços dele.

Começamos a dançar, mas apesar de ser uma musica agitada, não conseguíamos acompanhar a batida por mais que tentássemos, é como se estivéssemos em câmera lenta e a musica tocando no ritmo normal.

De repente cessou aquela musica e iniciou-se outra, era  a musica que mais gostávamos de dançar, nos entreolhamos e ele me puxou forte para perto dele e ficamos ali com os corpos juntinhos vivendo aquele momento. Era tudo tão intenso que esquecíamos de dançar.

Será que era o destino? É certo que quando queremos muito alguma coisa,e precisamos de uma justificativa, atribuímos á imposição de Deus ou do destino. Era uma música popular e tocá-la numa festa era bem normal, mas ali, junto com a nossa historia se tornou uma ordem do destino.

Descobrimos naquela hora que não vivíamos um sem o outro. Percebemos o erro que foi  uma separação tão imatura. As brigas, os desentendimentos, nada tinha importância, apenas estarmos juntos era necessário.

A música terminou, Tadeu me puxou pela mão até a mesa onde ele estava, os amigos pareciam entender a situação, saíram e nos deixaram a sós.

As palavras não saiam, mas também era desnecessária, porque os olhos diziam tudo.

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Curtimos aquela noite e depois fomos embora, cada um pra sua casa. Decidimos que precisávamos de um recomeço, mas desta vez seria uma atitude pensada, sem atropelamentos.

Trecho retirado do e-book: Deslizes, a saga de uma menina má.

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

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