O Susto

susto

 

Era final de semana, e me lembro bem disto porque não tinha aula. E como bom preguiçoso que eu sou, aproveito estes dias para fazer o que eu mais gosto, dormir e jogar vídeo game. Fico até tarde na cama, depois de passar a noite jogando.

Na noite anterior, então, eu tinha passado e muito da hora estipulada pela minha mãe pra ir para a cama, e de manhã parecia que eu tinha terminado de deitar.

Sonolento, percebi um movimento no meu quarto e esperei como de costume ser acordado, mas nada, a movimentação continuava normalmente, mas silenciosa, como se procurassem alguma coisa. Esperei pela bronca:

-Juca, vai dormir o final de semana inteiro, levanta menino!

Mas ao contrário, nada de bronca, tudo continuava silencioso. Decidi não desperdiçar aquele bônus e dormi novamente.

Eu sou daqueles que quando tenho dez minutos para dormir, eu durmo e acordo exatamente dez minutos depois, e sem despertador.

Eu sou capaz de olhar para a professora durante a aula com os olhos fixos, abertos, enquanto ela passa a matéria, e simplesmente dormir ali, fitado nela (aparentemente é claro). Sai até uma lágrima, tamanho o esforço que tenho que fazer, e ela, coitada, ingênua pensa que a lágrima é pela emoção que sinto com o conteúdo, ou com ela, sei lá.

Mas eu sou bom nisto. Como eu sou bom aluno e um grande fingidor, ela pensa coitada, com certeza ela pensa.

E o bom aluno tem muitos privilégios, por não ter um passado que o condene. Eu por exemplo muitas vezes já saí ileso de alguma traquinagem, simplesmente porque ninguém ligou meu nome ao mal feito.

E vamos combinar, normalmente somos julgados pela fama e não pelos atos. E neste quesito eu sempre me dei bem, porque minha fama é excelente. Esta eu acho que é uma das minhas maiores espertezas.

Mas enganar a mãe já é outra estória, elas nos conhecem muito bem, e minha mãe então, é uma cobra, de tão esperta.

Mas, na boa, esquece esta comparação, porque só de falar em cobra eu já fico tenso, não porque sou um cara medroso, porque não sou, mas eu tenho meus motivos para não ser simpatizante de serpentes. Talvez porque ela consiga ser mais esperta que eu, e nenhum metido a esperto gosta de seus concorrentes.

Voltando àquela manhã, dormi mais dez minutos, acordei e nada, nem um grito, nem um chacoalhão, nem um pio.

E eu sou do tipo prevenido, se posso dormir eu durmo, aproveito o tempo, porque não se sabe o que vem depois, e seja o que for pelo menos eu já dormi.

Então em vez de questionar, porque ninguém me acordou, virei para o canto e dormi, e desta vez sem programar meu relógio biológico para despertar, iria dormir enquanto quisesse, ou minha mãe deixasse.

Acordei mais tarde, novamente com a movimentação e desta vez com vozes. Percebi que não dava mais, já tava curioso para saber o que estava acontecendo. Virei e abri os olhos.

Tio Isaac que morava do lado da minha casa, estava com um pedaço de pau na mão, levantado e pronto para dar uma paulada em mim.

Tentei organizar minhas ideias, pensar no que eu tinha feito de tão grave pra merecer aquilo. E pior, minha mãe e meu pai estavam do lado. E estranho que apesar de estarem em cima de mim, olhando em minha direção, não era pra mim que eles olhavam, pareciam nem me ver, como se eu fosse transparente, invisível.

Fechei os olhos novamente, e tentei entender o que estava acontecendo. Aí, me veio a ideia, eu estava sonhando, isto acontece muito com meu amigo Caio, faz coisas do tipo andar, abrir a geladeira, conversar, tudo dormindo e no outro dia não se lembra de nada.

Já ia me dar um beliscão, mas fui interrompido com um grito de meu pai:

-Bate, bate, bate!

Olhei para eles, meu pai estava tenso e tio Isaac armou ainda mais o pau para bater, mas não conseguiu concluir.

Eu sem entender, comecei a chorar:

-Bate nãaaaaao!

Eles estavam assustados e olhavam na minha direção como se vissem um monstro e nem davam bola pelo fato de eu estar chorando.

Tentei me mexer, queria sair correndo dali, mas…

-Vai, vai, vai…

-Bate, bate, bate…

E eu já entrando em desespero, chorava ainda mais:

– Bate nãaaaaao!!!

Mas ninguém me via. Enfim consegui me beliscar pra ver se não era um pesadelo, mas senti a dor do beliscão e percebi que eu estava bem acordado.

De repente eles ficaram ainda mais tensos e meu pai gritou agora mais incisivo:

-Bate, bate na cabeça pra matar!

Eu chorei ainda mais forte:

-Na cabeça, nãaaaao!

Mas antes que eu conseguisse fazer alguma coisa para me proteger, meu pai tomou o porrete da mão de meu tio, levantou e usando toda a sua força, desceu-o em minha direção.

Fechei os olhos, me encolhi todo e ouvi o barulho do impacto da batida.

Alguma coisa caiu no chão, todos sorriram aliviados e eu me sentia abandonado, sozinho.

Apalpei-me certo que estava morto ou ferido, mas não sentia nada, tamanho o susto, mas ouvia a voz deles entusiasmados.

Criei coragem, abri os olhos e todos estavam olhando para o chão. Virei na cama e olhei na direção, uma enorme cobra, morta golpeada na cabeça.

Sorri aliviado, pulei da cama e abracei minha família.

Ufa! Eles queriam me proteger.

Estava tudo explicado, mas nunca mais eu quis saber de cobras.

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

Eu adoraria saber sua opinião.