O Que Fiz Para Merecer Esta Vida

o que fiz

O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.”

Ariano Suassuna

Quem nunca passou por momentos de intermináveis crises, se viu em profundos buracos sem nenhuma opção de saída, se sentindo a pessoa mais sem sorte da história.

Hoje, vamos conversar sobre estes momentos que nos fazem perder a cabeça e ilustrá-los com personagens da literatura.

sabe aqueles dias que você parece tomar conta da sua real situação de miséria e tudo que lhe vem a cabeça é se jogar do último andar?

E pra piorar a situação, alguém chega e ao invés de concordar que você é vitima desta vida injusta, insinua que você está precisando é de uma dose de motivação, talvez esteja com um começo de depressão. Ou seja,  o problema é você, e não sua realidade.

apontar o dedo

Quer uma boa notícia? Você não está sozinho. Você vai se sentir compreendido através de alguns personagens da literatura. E o que não falta são personagens para ilustrar este momento. E o ponto positivo é que cada um sai deste emaranhado de uma forma diferente, ou seja, ótimas inspirações.

Então, vamos dar uma espiada em alguns destes personagens revoltados. Quem sabe algum não te inspira ou te faz se sentir melhor?

A desafortunada e ingênua Macabéa

Comecemos com Clarice Lispector em uma de suas obras mais brilhantes:

A Hora da Estrela

a hora da estrela




Macabea é uma alagoana órfã, virgem e solitária, criada por uma tia tirana, que a leva para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa.

Ela veio ao mundo bem raquítica; aos dois anos ficou órfã. Então foi com sua única parente para Maceió. A personagem demorou a se desenvolver fisicamente e no início não parecia ter qualquer traço de feminilidade.

O único prazer dela era comer goiabada com queijo, mas sua tia fazia questão de lhe proibir de saborear essa delícia só para puni-la.

O Cacheiro Viajante Gregor

Em segundo lugar uma das obra-primas de Franz Kafka.

A Metamorfose

metamorfose

Nesta obra de Kafka, ele descreve uma caixeiro viajante que abandona suas vontades e desejos para sustentar a família e pagar a dívida dos pais, tendo o nome de Gregor Samsa.

Gregor odiava seu emprego, mas precisava sustentar sua família. Numa certa manhã, ele acorda metamorfoseado em um inseto monstruoso. Kafka descreve este inseto como algo parecido com uma barata gigante. Nos primeiros momentos, o livro descreve as dificuldades iniciais de Gregor na nova forma.

Uma ironia presente neste trecho do livro é que Gregor não se preocupa com sua transformação, mas sim como está atrasado para o trabalho.

Nesta nova condição, todos ficam muito ressentidos por ele ter se tornado um estorvo em forma de barata. Rejeitado, sua única companhia é ele mesmo. Apenas em alguns momentos, a irmã mostra certa compaixão.

O velho pescador santiago

Este é o livro mais famoso de Ernest Hemingway

O velho e o mar

o velho e o mar (2)

 

A história tem como personagem principal um velho pescador cubano chamado Santiago. Apesar de muito experiente, Santiago encontra-se numa maré de azar, tendo ficado quase três meses sem conseguir pescar um peixe. Um caso de azar profissional. Além disso, sua batalha com um peixe espada é épica, exaustiva, atrai um monte de tubarões e acaba em vão. Pobre Santiago.

Santiago possui um jovem amigo, chamado Manolin, que o incentiva a pescar. Na manhã do 85º dia, na sua pequena canoa, Santiago consegue um peixe, de tamanho descomunal.

O peixe oferece muita resistência, e arrasta a canoa de Santiago cada vez mais para alto mar. Santiago sofre com o sol cegante e abre feridas nas mãos e nas costas, de tanto lutar com peixe.

Depois de alguns dias, Santiago consegue finalmente matar o peixe e amarrá-lo à sua canoa. Porém, enquanto retornava a costa, sofre constantes ataques de tubarões.

Quando finalmente consegue chegar à praia, o peixe já estava sem carne, só restava a sua espinha, e Santiago estava sem forças. Os outros pescadores, vendo tamanho peixe, o maior que alguém já havia pescado, respeitam e ajudam-no, especialmente o jovem Manolin, que gostava muito do velho.

 

Luísa, em o azar no amor

Uma das provas da ousadia de Eça de queiros

O Primo Basílio

o primo basílio

Ingênua, desocupada e sonhadora, Luísa se deixa seduzir pelo primo, e vira vítima de chantagem da criada psicopata. E mesmo quando a vilã morre, a protagonista não tem uma folga e cai doente.

O Primo Basílio conta a história de Luísa, que acaba envolvida por Basílio, seu primo, com quem se reencontra, após anos de distância. Achando-a sozinha, já que Jorge, o marido, viajara a negócios, Basílio serve-se de sedução e galanteios, até levá-la a se envolver profundamente consigo, tornando-se sua amante. Juliana, a criada, descobre a correspondência trocada por ambos e chantageia a patroa.

Após sofrer muitas humilhações e ter que se submeter aos caprichos da crudelíssima criada, Luísa consegue, ajudada por um amigo, reaver as cartas; e Juliana, ante as ameaças, acaba morrendo do coração. Após tanto sofrimento, Luísa adoece. Basílio, encontra-se longe de Lisboa.

Jorge regressa ao lar. Certo dia, chega uma carta do primo para a esposa e o marido intercepta a correspondência e toma conhecimento de tudo que ocorrera.

Desesperado e sofrendo demasiadamente, ainda assim Jorge resolve perdoar Luísa. Ela, no entanto, piora muito ao saber que o marido descobrira tudo o que fizera de errado.

Quer ver outros personagens azarados?

  • Diario de um banana – série infantil em 11 volumes

  • Espiã – Livro de Paulo Coelho que conta a história real de Mata Hari

Conheça mais deste livro: A Espiã pelo Olhar do Mago das Letras

Conheça Carolina Maria de Jesus, uma mulher negra, analfabeta, favelada e escritora.

E claro, que num momento de crise não pode faltar a versão de Pollyana (livro) que trará um pensamento positivo.

Sabe: Que este momento pode ser de crescimento, que nada melhor que uma crise para se transformar em alguém melhor…

A azarada otimista de  Eleanor H. Porter

 Pollyana

pollyana

“Pollyanna entrou no quartinho. Olhou as paredes sombrias, as janelas cerradas, o chão frio… Abraçou a mala e começou a chorar. Que seria dela agora, tendo de morar naquele lugar? De repente, animada, disse que aquele quartinho poderia ficar lindo. Bastava começar o jogo.”

Mas que jogo é esse?

Pollyanna, uma menina de onze anos, após a morte de seu pai, um missionário pobre, se muda de cidade para ir morar com uma tia rica e severa que não conhecia anteriormente. No seu novo lar, passa a ensinar às pessoas o “jogo do contente” que havia aprendido de seu pai. O jogo consiste em procurar extrair algo de bom e positivo em tudo, mesmo nas coisas aparentemente mais desagradáveis.

Mas voltando à vida real. Nesta hora sempre fazemos aquela pergunta clássica:

O que fiz para merecer esta vida?

Você tem razão:

A vida não é mesmo justa, talvez deveria ser, mas não é.

Dizer que somos totalmente responsáveis pela própria história., é no mínino ingenuidade.

Somos muito mais resultados. Resultado dos ensinamentos que recebemos, de nossas crenças, do lugar onde nascemos e vivemos, das ferramentas que nos são acessíveis… E por aí vai.

Mas diante desta situação, temos duas alternativas.

Sentar, chorar e esperar a morte. E escrever na história: Sou um fracassado. Sim porque ninguém vai levar em consideração suas dificuldades se você não vencer. A culpa não será da sociedade e de nenhuma outra pessoa. Será sua. 

Ou arregaçar as mangas e fazer o que conseguir. Porque não tenha dúvidas que se a vida lhe desse melhores oportunidades, você conseguiria ir bem mais longe.

o que fiz para merecer

Mas tem uma mensagem de auto ajuda bacana. Uma mensagem de otimismo, bem estilo Pollyana.

Quando você tem consciência que a vida é injusta com você, isto pode ser usado para ser mais tolerante com o outro, estender a mão para quem também precisa de ajuda. Mesmo que outros não lhe fizeram isto.

Quando agimos assim, saímos da situação de vítima e nos tornamos solidários, colaboradores, e quem sabe esta atitude até inspire alguém. Este pode ser um caminho.

Agora, porque você conseguiu vencer, não quer dizer que a sociedade deixou de ser injusta. Não. Ela continua injusta, as oportunidades continuam não aparecendo. Você se tornou exceção. Mas a regra é outra.

Pegar a exceção sempre como modelo é outra injustiça que podemos cometer.

E passando por isto você pode se tornar uma pessoa bem mais tolerante com quem se sente injustiçado. Sim, porque não tem melhor forma de compreender o outro que compartilhando de suas dificuldades.

A literatura nos mostra caminhos, ou não, mas sempre nos possibilita a olhar a partir de outro ponto, ou seja, ter um outro ponto de vista, e isto com certeza nos torna mais criativos para enfrentar as tantas dificuldades da vida.

E você tem algum livro que te inspirou? Já leu algum destes que apresentei? Nos conte tudo, não esconda nada.

 

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

4 thoughts on “O Que Fiz Para Merecer Esta Vida

  1. Já li O Velho e o Mar e Pollyanna menina e moça. O Primo Basílio e Metamorfose só resenhas mesmo. Está sendo tão gratificante ler essas suas resenhas, Meirinha! Só assim, consigo ao.menos lembrar só tempo em que eu poderia pegar um livro e ler, despreocupadamente
    Um abraço

  2. Oi vania. Fico muito feliz que os meus escritos estejam sendo úteis pra você. O velho e o mar e pollyana são ótimos mesmo. Uma dica: acho que você iria gostar de metamorfose, muitos elementos para refletir. Bjos e sempre grata com suas visitas.

  3. Nossa que post mais tocante, e a dica de livros são ótimas. Ainda não tive o prazer de ler, mas já estou adicionando alguns a minha lista. Pollyanna de Eleonor H. Porter é um dos meu favoritos desta lista. Linda matéria. Beijos no coração.

Eu adoraria saber sua opinião.