O Paraquedas

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“Sentia a própria queda em câmera lenta, e um desespero tomar conta do meu corpo.  Por mais que quisesse morrer, aquele momento não era prazeroso.”

Passei as pernas por cima daquela pequena árvore, e andei um pouco mais. Eu bem sabia de todos os perigos que corria naquele lugar, mas continuei mesmo assim. Aliás, eu estava ali exatamente por causa deles.

Dei mais alguns passos e olhei para baixo, um pedregulho rolou e caiu. Pude vê-lo até certa altura, mas depois ele sumiu na profundidade.

Dez, vinte, trinta metros, ou mais, eu não fazia ideia, nunca fui boa em noções de medidas, cálculos, mas sabia que aquela ribanceira era funda o suficiente para matar uma pessoa antes que ela chegasse lá em baixo.

Sempre tive medo de altura, mas agora ia correr o risco, ou melhor, não era risco, a morte era certa, e isto não me amedrontava, porque nada poderia ser pior que conviver com aquela dor e solidão.

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Tinha vinte e um anos quando na minha vida alegre, louca e cheia de irresponsabilidades descobri que estava grávida. Até aí, vivia com a pensão que recebia pela morte de meu pai. Mas que se encerrou junto com a gravidez.

E pior, uma gravidez sozinha, porque eu não fazia ideia de quem poderia ser o pai daquela criança. Fiz as contas, tentei relembrar meus encontros da época e nada. Mas também os meus “eventuais”, eram na maioria desconhecidos, encontro de uma noite, sem antes nem depois.

No inicio fiquei meio desnorteada com a descoberta, não sabia o que fazer, sem emprego, sem dinheiro, sem casa, sem ninguém que pudesse me dar uma força ou uma ideia, mas maluca como era, logo também me esqueci daquele inconveniente e já tava curtindo a vida novamente.

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E foi numa destas espairecidas que conheci Mario, um homem bacana, bem financeiramente, mas muito solitário. Rolou um clima de cara e fui parar na casa dele. Lá fiquei por uma semana e estávamos curtindo.

Mas esconder aquela situação, já estava me incomodando e resolvi abrir a realidade pra ele.

-Aqui, cara, tenho um lance pra te dizer. Tô grávida.

Fui dizendo assim na cara, sem nem preparar o terreno. Mario sorriu e disse:

-Mas eu sou estéril?!

Ele entendeu tudo errado, certamente já estava pensando em golpe:

-Não, eu já estava grávida quando nos encontramos. A questão é que eu não tenho para onde ir. Depois que esta criança nascer, já decidi que a darei pra adoção, mas até lá preciso de ajuda.

Ele ficou calado por um tempo e depois continuou:

-Olha Lya, eu também tenho uma coisa pra te dizer. Estou doente, muito doente. Meu coração anda muito mal.

Respirou fundo como se buscasse força e continuou.

-Eu não tenho ninguém. Meus pais morreram e sou filho único. Vamos combinar o seguinte, você fica aqui até ganhar a criança. Eu dou tudo que você precisa, e em troca você me faz companhia durante o meu tratamento.

Eu não pensei duas vezes. Aceitei a proposta na hora. E assim que minha filha nasceu, entreguei-a pra ele levar pra adoção. Não queria nem saber o fim daquela menina.

Os três primeiros anos com Mario foram ótimos, eu já não saía, me afastei dos amigos de antes, era só nós dois, jantares, museus, cinema… programas opostos ao meu estilo de vida anterior. Mas logo ele começou a ficar cada vez mais doente, até que não resistiu e morreu.

Ele era incrível, não éramos marido e mulher, éramos amigos que se cuidavam mutuamente. Bem antes de morrer, eu já tinha todas as suas senhas e era responsável pelos seus bens, e quando ele foi ficando ainda mais doente, passou tudo para o meu nome. Ele confiava mesmo em mim.

Várias vezes ele tentou falar sobre a criança, mas eu mudava o rumo da conversa. Desde o nascimento, nunca mais falei e evitava até pensar no assunto.

Mas com a falta de Mario a ficha caiu. Quando me vi sozinha, não consegui mais fugir daquela questão e pensava nela dia e noite. Ele de alguma forma tinha preenchido o espaço vazio da minha vida.

Entrei numa forte depressão, com os tratamentos melhorava um pouco, mas minha questão era muito mais profunda.

Cresci sozinha e quando tive a oportunidade de ter alguém de verdade na vida, construir uma família, ter uma filha, simplesmente a doei. Passei a vida fugindo de mim mesma, mas agora veio tudo como um rolo compressor, e eu não tinha forças nem vontade de viver.

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Olhei novamente para o penhasco, peguei o embrulho que estava no pé da árvore. Um pacote que Mario deixara pra mim antes de morrer. Estava escrito apenas:

Um tesouro, abra quando estiver pronta.”

Eu já estava decidida iria pular do penhasco e levar aquele pacote comigo, não queria saber nem o que era. Não estava pronta e nunca estaria.

Seria talvez um diamante, ou sei lá, algo com certeza valioso. Mario era um homem bom, mas muito ambicioso e dava muito valor ao dinheiro, por isto passou a vida sozinho, mas eu não precisava de dinheiro, queria morrer, porque não havia nada que pudesse tirar aquela tristeza que eu sentia.

Olhei para aquele lugar, estava meio árido, mas ainda assim a vista era muito bonita. Aquela seria minha última visão antes de morrer. Peguei o envelope, lacrado como estava, tirei um pedaço de barbante do bolso e amarrei o pacote em volta da cintura. Não queria que ele se perdesse, morreria com ele. Aproximei-me ainda mais do penhasco.

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Passei a mão no cinto que usava era um presente de Mario, marrom com detalhes dourados e visivelmente resistente, pesava um pouco. Pensei em tirá-lo, mas mudei de ideia.

Que diferença faria, daí a pouco tudo seria desnecessário.

Estava me preparando para pular quando um passarinho passou voando perto, muito perto de mim. Aquilo me assustou tanto e como estava perto demais do penhasco não pude evitar. Perdi o equilíbrio e caí.

Sentia a própria queda em câmera lenta, e um desespero tomar conta do meu corpo, por mais que quisesse morrer, aquele momento não era prazeroso.

Fechei os olhos aguardando o impacto, mas alguma coisa raspou e machucou minhas costas e em seguida um movimento de vai e vem, como se estivesse numa gangorra.

Meu corpo não estava mais descendo. Demorei um tempo para me dar conta do que estava acontecendo.

Abri os olhos e me olhei. O cinto estava preso num galho de arvore e eu estava simplesmente pendurada no alto, mais ou menos na metade do caminho para a morte. Aquilo já era maldade.

O galho não era tão forte, e não iria aguentar por muito tempo, mas eu não queria que ele quebrasse logo, na verdade estava bem arrependida daquela loucura, mas agora não tinha o que fazer, a morte estava ali, a alguns minutos.

Sentia o desespero aumentar quando me lembrei de repente do pacote.

Com a queda o barbante começou a arrebentar e ele estava quase caindo.

Peguei-o e fiquei olhando-o para me acalmar. Tive vontade de abri-lo. Afinal ia morrer mesmo, não fazia diferença saber agora qual era o tesouro que Mario tinha deixado pra mim.

Abri o envelope e uma carta estava logo à frente. E em cima a frase.

“Para o paraquedas que entrou na minha vida e me ensinou a voar.”

Aquela frase me fez sentir ainda pior, como se traísse Mario. As lágrimas começaram a cair e eu falei em voz alta como se ele estivesse ali.

-Você me deu tudo que pôde, cara. Foi minha família, meu amigo. E lutou tanto para viver e eu joguei a minha vida do penhasco. Desculpe cara!

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Continuei lendo a carta:

Lya, você é como um paraquedas, feita pra voar e ser livre como o vento. Mas precisa aprender a se conduzir. Um paraquedas sem condução está fadado à morte e à destruição.

Lição das nossas vidas: Ser livre com responsabilidade.

Você me ensinou a ser livre e eu te ensino a ser responsável.

Sua vida transformou meus últimos anos nos mais alegres da minha vida. Quero te recompensar por isto. Você é muito jovem, vai chegar a hora em que seus atos começarão a pesar e você vai querer desistir da liberdade.

Aí, olhe e treine com um paraquedas. Conduzindo-o, aprenderá a se conduzir também.

Olhei o pacote e vi que dentro tinha exatamente um paraquedas, pequeno e portátil. Continuei a ler, para clarear as ideias.

Eu sabia que uma hora iria exigir de si mesma respostas sobre sua filha, queria ver este momento, mas não consegui. Também não quis forçar.

No final desta carta está o endereço dela, tem uma pessoa de confiança cuidando dela pra nós. Ah e só pra dizer, ela é linda e tá doida pra te conhecer. Visitei-a durante todas as semanas em que estive bem.

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Nina, registrei-a em nosso nome.

Eu não acreditava no que ouvia, minha filha estava a minha espera. E agora eu estava pronta e queria assumir aquele papel, o papel mais importante da minha vida.

Tentei sair andando, mas um estalo na madeira me deu um choque de realidade – eu estava num penhasco pendurada num galho, pronto pra quebrar.

Por alguns momentos pensei que pudesse ser um sonho, ou já estava morta, mas outro estalo me fez acordar.

Mario, encontrado num momento tão inoportuno de minha vida, mas tinha sido o maior presente, e agora estava ali novamente do meu lado, me dando sentido de viver, ainda que na hora da morte.

Uma folha se soltou da árvore e passou voando perto de mim. Neste momento a minha ficha caiu.

-Claro, o paraquedas.

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Gritei e peguei-o rapidamente, parecia fino e frágil, mas eu não tinha nada a perder, pendurada num barranco daqueles. Encaixei-o na cintura, não fazia ideia de como usar aquilo, mas o instinto de sobrevivência daria um jeito. Se não desse certo, pelo menos teria tentado me salvar da minha própria cilada.

Enquanto pensava no que fazer com as mãos e com o resto do corpo, o galho quebrou e … saímos voando, eu e o galho, que por sorte era pequeno.

Tentei fazer força de um lado para outro para me controlar, mas o vento era mais forte.

Depois de um tempo nos ares caí em cima de uma arvore e senti que todo o meu corpo estava dolorido, mas era tanta a alegria de estar viva, que a dor era só um detalhe. Mas quando tentei descer senti que era mais que dolorido, parecia que a perna estava quebrada ou coisa parecida.

Com muito esforço desci, o paraquedas tinha caído numa mata que eu não fazia ideia de onde era e como fazer para sair.

Foram dez longos dias até encontrar ajuda, tive que pescar, caçar, comer carne crua e tudo sentindo muita dor, frio e medo. É como se a vida tivesse me cobrado alguma coisa, passei tanto tempo tentando me matar, que agora tinha que provar que merecia viver.

E foi o que fiz, lutei e venci.

Já tinha dominado o paraquedas, agora era ir atrás de minha filha.

Nina era linda e tinha cinco anos, decidi ficar lá com elas por uns dias antes de levá-la pra casa, até que se sentisse segura comigo.

Mas pra minha surpresa, além de uma filha, ganhei também uma mãe. Lindalva era uma senhora gentil e sozinha.

A partir dali seríamos uma família.

Eu, Nina e Lindauva…

Ah, e o anjo Mario, que sempre estaria por perto, não dá pra duvidar disso, né!?

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

2 thoughts on “O Paraquedas

  1. Uma história realmente muito linda, Meire! Amei o desfecho dos personagens e a lição de vida que podemos extrair daí! m abraço! Bjs

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