O dia em que a terra voou

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De repente a terra começou a tremer, mais que tremer, estava balançando de um lado para o outro, como se estivesse sendo arrancada do lugar.

Todos os bichos entraram em desespero e seguravam como e onde conseguiam.

As crianças chorando, as mães desesperadas e os pais tentando como podiam proteger suas famílias.

Mas como? O que eles podiam fazer?

“Será que é um terremoto? Mas deste jeito, forte assim?”

Tá certo que Davi Vidal nunca tinha visto um terremoto, mas já tinha lido sobre eles, e nos livros não pareciam tão intensos.

Os movimentos estavam ainda mais fortes. Eram solavancos que jogavam os bichos de um lado para o outro. Não só os bichos, mas tudo estava indo pelos ares: pedras, brinquedos, panelas… tudo voava.

Aos poucos aqueles movimentos agressivos foram se transformando e ficando mais suaves.

– Gente, nós estamos voando!

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A voz do aventureiro Perilo foi a primeira que se ouviu no meio daquela bagunça e anunciou o que todos já estavam experienciando.

A sua mãe, a esquila dona Joana quase teve um ataque:

– Se segura menino!

Gritou para conter aquele esquilinho que já estava totalmente solto, olhando maravilhado para tudo o que via.

Todos abaixados ali no centro da terra, se protegendo para não morrer, começaram aos poucos, logo depois de ouvir aquela voz entusiasmada de quem estava vendo algo inusitado, a levantar primeiro os rostos desconfiados e depois lentamente o restante do corpo.

-Oh!

– Uau!

-Meu Deus!

-Estamos mesmo nos ares!

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É, a nossa terra estava mesmo voando. Sim,  porque agora nós tínhamos uma terra só nossa, o nosso torrão. E ele estava se distanciando mais e mais do restante do mundo. Mas agora tranquilamente, já havia passado aquele alvoroço inicial e ninguém precisava nem mais se segurar.

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Todos começaram a curtir aquela experiência incrível. Até Davi Vidal relaxou e apreciava aquele momento.

A vila, que agora virara um torrão de terra voador estava indo cada vez mais alto. E lá de cima dava pra ver de forma totalmente nova toda a região. As árvores estavam minúsculas, os bichos então, não eram nem vistos. Era uma visão que todos iriam guardar pro resto da vida na memória.

Subitamente, o cenário começou a mudar, o sol ficou ainda mais quente, o verde transformou-se em azul, as árvores sumiram e todos se deram conta:

– Estamos na praia!

Foi novamente a voz de Perilo que anunciou o que todos já estavam percebendo em silencio.

Uma brisa com cheiro de água salgada começou a subir até os narizes dos bichos, e se intensificava cada vez mais rápido trazendo aquela sensação gostosa de mar.

O torrão começou a descer, mas antes disto fez uma pirueta no ar obrigando todos a se segurar como podiam, com exceção de Perilo, é claro, que a cada emoção gritava:

-De novo!

Desceu como se fosse se jogar no mar, mas estavam todos tão envolvidos na aventura, que ao invés de desesperar, eles gritavam eufóricos parecendo imitar a atitude do desajuizado Perilo.

Como que num tapete mágico, passaram pertinho do mar, quase dava para molhar a mão naquela imensidão de água. As ondas maiores chegaram a atingir o pedaço de terra que estavam.

Davi Vidal estava curtindo o passeio, mas com certo receio, porque água sempre foi o seu fraco. Ficou com o pé preso uma vez numa árvore e a água começou a subir e quase o afogou.

Desde aí a tratava com o repeito que ela merecia. Mas este era um respeito que guardava só para ele, tinha medo de que os bichos não compreendessem e o interpretasse como medroso.

O torrão voador abaixou ainda mais.

“Isto já está começando a ficar perigoso!”

 Davi Vidal não gostava daquela sensação, lidava bem com o que conhecia, que dava para calcular os riscos, e ali estava tudo fora do controle.

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Ele de repente se deu conta que não estava tendo reações físicas, apenas mentais. Era como se estivesse dopado ou dormindo, não conseguia falar, nem fazer nada, precisava alertar a todos dos cuidados necessários naquele momento, mas…

-Cuidado! –

Tentou gritar, mas a voz não saiu.

– Não pule!

Mas os bichos começaram um a um a pular na água e brincar lá como se estivessem numa piscina.

-A onda está vindo, tenham cuidado, ela é muito grande!

Mas os bichos nem olhavam.

Davi Vidal estava ficando desesperado:

– Pais, mães, filhotes, vocês perderam o juízo completamente?

Mas ninguém não estava nem aí para ele. E pior, estavam longe da praia e se acontecesse alguma coisa, ninguém conseguiria se salvar nem salvar os companheiros.

Davi Vidal já sem forças se virou para a sua direita em busca de uma solução. E o que viu era ainda mais assustador. Uma imensa onda vinha em direção de Perilo que estava só e distante do grupo.

E ninguém estava vendo nem Perilo, nem a onda. E Vidal, o único que estava vendo não tinha condição de ajudá-lo.

– Soldados, até vocês estão nesta farra insana e irresponsável? Cadê vocês?

– Ah, eles me pagam.

Dizia Davi Vidal no seu sofrimento solitário.

Antes que alguém se desse conta do perigo, a onda chegou e cobriu todos os bichos. Pegou-os de surpresa e mesmo os melhores nadadores não tiveram a menor chance.

Davi fechou os olhos para não ver aquela tragédia e começou a chorar, se debatia tentando pular na água. Precisava salvar seus amigos.

Mas seu corpo nem se mexia.

Cuidadooooooooooooooooooooo!

Mas a voz não saía.

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E também não adiantava mais nada, ninguém poderia ouvir ou fazer nada. A esta hora todos já estavam mortos.

Que pegada do destino, o correto é os líderes darem suas vidas pela comunidade, mas ali ao contrário toda a comunidade morreu e o seu líder estava bêbado ou dopado, ou qualquer outra coisa parecida. Mas a verdade é que não conseguia fazer nada e foi a única testemunha daquela tragédia que acabou com todos os seus amigos, nem um sobrou para chorar com ele.

Davi deixou de lado seus pensamentos e criou coragem de fazer a única coisa que lhe restava fazer: abrir os olhos e enfrentar aquela situação.

Estava assustado, com medo e com vergonha de estar ali naquela situação de inércia, enquanto sua comunidade toda morria.

– Que belo líder eu sou.

Dizia em silencio para si mesmo.

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Decidiu contar até três antes de abrir os olhos e conferir aquela tragédia.

-Um, dois, três e…

Todos estavam em volta dele com olhares curiosos e sem entender o que estava acontecendo.

-Ei vocês não estavam se afogando? Como conseguiram sobreviver?

Davi Vidal estava com ar de assustado. E todos os bichos o olhavam com curiosidade.

Ele olhou ao redor, tudo estava como antes, então olhou para seu corpo estendido, preguiçoso numa rede e compreendeu.

– Ufa, foi só um sonho.

Constatou aliviado.

Retirado do e-book Torrao Voador – a Irmandade dos Bichos Vegetarianos

E você, gostou desta estória, o que acha deste tipo de aventura? 

É uma ótima opção para o dia das crianças, porque pode ser lida por toda a família.

Nos dê sua opinião.

 

 

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

2 thoughts on “O dia em que a terra voou

  1. Fico muito feliz que você esteja gostando Waldirenny, afinal, é para vocês leitores que escrevo. Ah, fique atenta, porque teremos muitas novidades por aqui, prêmios… Olha eu com minha boca grande contando as surpresas. Rsss. Obrigada pela sua generosidade.

Eu adoraria saber sua opinião.