O Acaso, A Morte e Você- O Conto

E a morte do alto da sua autonomia aceitaria a culpa, afinal não é de seu feitio dar explicações. Aliás, os únicos que deveriam se justificar éramos nós por ter ficado doente num momento tão inoportuno.”

O dia lá fora estava frio…, ou quente…, não sei, mas também não importava, porque dali daquela cama de hospital público não tínhamos noção de como ia a vida lá fora, e por mais que o sol brilhasse lá não conseguia trazer quentura para nossas vidas cá.

leitos de hospitais
leitos de hospitais

Cá, estava gelado, não só pelo clima em si, mas pela falta de cores nas paredes, pela comida sem sal, pela lotação do quarto…  mas, não podíamos reclamar porque muitos nem quartos tinham, se viravam como podiam pelos corredores.

Mas o gelo que sentíamos vinha também dos olhares das pessoas. Olhares que nos mostrava a nossa insignificância. Não era preciso que ninguém nos dissesse, sabíamos. Éramos anônimos insignificantes. É claro que esta certeza ainda era reforçada por alguns fatos.

A Ana que recebeu a medicação que era do João. Se a enfermeira tivesse olhado ainda que de relance veria que ali tinha uma mulher ao invés de um homem.

Também o fato de estarmos deitados naquelas camas, cujos lençóis já tivera cor um dia, mas agora depois de tantas lavadas, tinha uma cor indefinida marcada por muitos furos e manchas também desbotadas. A falta de papel toalha e o papel higiênico encardido que só vinha se pedíssemos.

Nossos olhares vagavam por aquele caos, no fundo pedíamos encarecidamente a Deus que nos protegesse. E nossa fé nos dizia que Deus nos protegeria. Afinal não tínhamos mais em quem nos segurar.

A enfermeira chegou, abriu a porta e chamou por Adalgisa.

Uma senhora de mais ou menos cinquenta anos se levantou, trocamos olhares de cumplicidade e ela saiu para a cirurgia. A roupa que o hospital lhe dera era para um manequim trinta e seis, o que ela talvez já fora um dia. Mas hoje com seus vinte quilos a mais, ficava com uma tira do corpo, da cabeça aos pés descoberto, e como a túnica era aberta para trás, é possível imaginar qual parte de seu corpo ficou à vista.

procurando-un-culpado

Ela saiu andando como se nada de errado estivesse acontecendo, nem se exibindo, nem se escondendo, apenas andando, como se estivesse saindo do quarto de sua casa e indo em direção à cozinha.

Ao que ela virou as costas, todas se olharam e trocaram um sorrisinho malicioso. Ríamos da bunda dos outros, mas quando chegava nossa vez, fazíamos o mesmo sem nem nos lembrar do ocorrido. Talvez pela ansiedade, ou pelo medo, ou simplesmente por generosidade, dando as outras uma oportunidade para sorrirem.

A próxima e última seria Maria da paz, uma alcoólatra que apesar de ter família, passou muito tempo na rua. Agora estava tentando se manter em casa e livre do álcool, mas o estrago já estava feito. Tanto no relacionamento com os filhos, quanto no fígado. Mas tinha um humor injustificável, com toda aquela desgraça ria de tudo e de todos.

E junto com ela todas riam e sempre que passava a crise de riso, voltava-se àqueles assuntos críticos, atuais e comprometidos com a realidade, como:

-Tem morrido tanta gente ultimamente, né?

-E como. Olha morreu o sicrano, o fulano…

cemitério

E começavam a listar interminavelmente os mortos dos últimos dias, incluindo também aqueles que há anos haviam passado desta pra uma melhor.

Era uma forma de se distrair e não pensar na situação. Falar daqueles que estavam em situações piores que a nossa, nos amenizava. E estar morto era muito pior que estar ali.

Já fazia horas que Maria da Paz tinha ido para a cirurgia e ainda não havia voltado. Mas estávamos ainda sob efeito da anestesia, não conseguíamos computar direito as coisas.

Ali éramos solidárias por que tínhamos muito em comum, estávamos todas doentes, aguardando há muito tempo por aquela cirurgia e sabíamos que a partir dali ainda teríamos uma longa caminhada. E talvez o ponto mais comum entre nós, já estávamos acostumadas a mendigar por uma consulta, um exame, uma cirurgia; a ter muita esperança; a suportar aquela tragédia que era nossa vida.

A cada suspeita de que algo pudesse ter dado errado, nossos olhares se encontravam e diziam a mesma coisa, que sabíamos sem que a boca precisasse dizer.

E tínhamos uma certeza de que se qualquer coisa saísse errado ali, teria uma vítima certa, nós. O médico, um desconhecido que nem se dava ao trabalho de nos dizer seu nome, em mais um de tantos procedimentos naquele centro cirúrgico precário, não lhe faltaria justificativas, teria uma dúzia de itens que poderia isentá-lo, sua defesa seria certa.

O hospital se quer precisaria dar explicações, porque ninguém ousaria pedir, teria apenas mais um número para colocar na conta do SUS, piorando ainda mais sua reputação de sistema ineficiente.

O culpado seria certamente o acaso.

Mas não estávamos só, ainda teríamos nossas famílias para chorar e por na conta de Deus e da morte, mais uma tragédia.

procurando-um-culpado

E a morte do alto da sua autonomia aceitaria a culpa, afinal não é de seu feitio dar explicações. Aliás, os únicos que deveriam se justificar éramos nós por ter ficado doente num momento tão inoportuno.

Mas em dias, ou em horas, não se falaria mais daquilo, as mentes limpas pelo esquecimento, inocentando também as consciências, os leitos do hospital não tão limpos, mas vazios para a próxima história que o acaso iria escrever.

E Maria da Paz não voltou.

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

24 thoughts on “O Acaso, A Morte e Você- O Conto

  1. Muito bom , e muito ruim depender de hospital público semana passada mesmo fui em um e passe mais de 4 horas de espera e o atendimento não é 100% seu conto foi maravilhoso parabéns sucesso

  2. ola , como está ?
    Deprimente a situação da saude no nosso BRASIL !!!!
    E quantos de nós não tem o seu conto , e o culpa ??? O caso como você descreve.
    Muito triste … BJSSSSS

  3. A pior coisa que existe é depender do hospital público, as autoridades do Brasil não querem saber de melhorar os hospitais e quem acaba sofrendo são as pessoas que precisa. O seu texto relata muito o que acontece nos hospitais público, é uma pena essa situação, parabéns pelo texto fiquei emocionada, bjs.

  4. Bom dia, como vai?
    Gostei bastante do seu tema abordado e isso nos nos mostrar que a realidade brasileira é realmente triste e “ninguém” faz nada, pelos menos os que recebem para fazer. Deveriam ter um pouco mais de coração. Mas enfim temos que lidar com isso. beijos

  5. O seu texto passa uma mensagem muito bonita sobre o valor da vida e sua relação com um hospital. Muitas vezes quando estamos com saúde não nos importamos com o valor da vida e do agradecimento de estarmos vivos.Um belo texto!

  6. Olá, tudo bem?

    Esse conto carrega consigo muitas emoções, e eu pude senti-las ao extremo enquanto realizava a leitura. Não sei se o mesmo foi baseado em alguma experiência própria, o que sei é que para mim ele carrega muita verdade e sentimentos. Imagino que não seja fácil lidar com essa situação, ser um “nada” para a sociedade, andar e não ser enxergado. Mas, infelizmente, muitas pessoas ainda são assim, ainda são colocadas ao acaso e espera-se que apenas a morte as banhe. Parabéns pelo texto, muito bem escrito e comovente!

    Beijos!

  7. Muito triste história do nosso Brasil, eu passei isso na minha família,tristeza, perdi um irmão que ficou 24 horas em uma ambulância sem uma vaga nos hospitais em que terminou falecendo, foi um caso muito falado no Brasil…Depois de 20 anos, eu perdi Minha mãe ela sofreu um ataque cardíaco.demoraram para a socorrer então ela veio a óbito.Eu vejo quantas pessoas devem ter perdido suas vidas por falta de ajuda em hospitais público.

  8. Esse texto é muito triste =\ me toca muito ver como as pessoas são tratadas como nada no nosso sistema de saúde, é de chorar se imaginar diversas pessoas idosas e crianças que passam por isso diariamente apenas tentando sobreviver. Muito bom que divulgue isso, tomara que tentemos sempre melhorar!

  9. Curioso estar a ler este seu “post” onde a morte é a personagem principal, sendo que logo hoje, a carta de tarot que tirei para o dia foi precisamente a da Morte. A morte que surge implacável e não dá explicações e que remédio o nosso se não ir vivendo com boa disposição enquanto ela nos vai dando tréguas…
    História triste mas com sentido de humor!… E eu fiquei triste pela Maria da Paz e todos os outros que passam pelos hospitais e nem sempre são tratados com a dignidade que merecem… Mas sorri com os sorrisos maliciosos das personagens no meio do caos!

    https://magarosa3.blogspot.pt/
    (Rosa Rosa)

  10. Oi!
    Relato breve, mas não precisava de nem uma linha a mais, está completo. Descreve com exatidão e delicadeza a precariedade daqueles que se vêm dependentes do SUS, que tristeza. E, mesmo nessas horas, o ser humano busca suporte emocional no cotidiano, nas amizades curtas e na fé que, mesmo efêmera, é necessária como o ar que respiramos. No fim, foi o que entendi, o protagonista da sua história não é a morte – essa é colocada à margem como a figura inevitável que é – o protagonista é a esperança.

    Parabéns =*

  11. Que texto! Da desespero ver a qualidade do serviço e atendimento a que somos expostos, ainda mais em hospitais quando estamos tão vulneráveis! Triste, muito triste mesmo! Beijos

Eu adoraria saber sua opinião.