Memórias de Um Feliz ano Novo

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Os fogos começaram a estourar no céu, e o brilho das luzes refletia nos olhos felizes e cheios de perspectivas de todas aquelas pessoas que assistiam à festa de ano novo e insistiam em acreditar que junto com o inicio do ano, iniciava também um novo mundo.

Elena colocou novamente a foto no porta retrato. Aquele tinha sido um de seus melhores trabalhos, a foto tinha sido tirada a alguns anos.

No meio da multidão, uma pessoa comum, embasbacada com o brilho do show pirotécnico, e Elena acostumada a dar destaque a detalhes através da lente da máquina fotográfica, não resistiu ao ver tanta beleza refletida através dos óculos da desconhecida.

Aquele espetáculo nos óculos, mais a expressão da moça foi uma combinação perfeita, deixando registrado a melhor descrição daquela noite aos olhos de Elena.

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Mas agora num dia de ano novo, ela estava ali, em casa, sem nenhuma disposição festiva. E não lhe restava nada mais a não ser olhar aquela foto e relembrar os velhos tempos, viver das memórias de um Feliz Ano novo.

– Vim só dar boa noite.

A voz de Marina tirou Elena de seus pensamentos.

Marina era uma amiga de infância de Elena e as duas se orgulhavam de terem passado todos os inícios de ano das vidas juntas. Era quase que uma simpatia para garantir que teria a companhia uma da outra durante todo o ano.

Por uma força de rotina ou de superstição Marina veio ver Elena, mesmo não estando no clima do novo. Mas não tiveram ânimo para fazer nem que fosse uma mini festinha. Jantaram como num dia comum e agora Marina voltava para sua casa.

-Boa noite.

Disse Elena se levantando para abraçar a amiga meio sem jeito, porque a noite pedia mais empolgação.

Marina retribuiu o abraço e não resistiu, repetiu o mantra de todas as viradas de ano.

-Que o deus do novo volte e permaneça, olhe por nós e nos ajude no recomeço.

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As duas concluíram o abraço, com aquela sensação de que faltava alguma coisa, mas ambas sabiam que esta ausência era a energia para celebrar e festejar o novo ano. Marina saiu em silêncio.

Elena sentou-se no sofá, colocou os pés no puff e começou a relembrar a sua  história naquela cidade.

Nascera ali, e sempre achou que se tivesse que escolher um lugar para viver, escolheria exatamente a mesma cidade.

Era uma cidade pequena e completamente afastada do resto do mundo. Durante muito tempo eles nem sabiam direito que havia um mundo maior, muito maior que o deles.

Todos eram felizes, festivos, e tudo era motivo para celebração. Mas celebravam do jeito deles, mas depois que chegou internet na comunidade, descobriram novas realidades.

Por um lado puderam aprender muito, a vida foi facilitada, mas junto com as novidades vieram descobertas que mal usadas poderiam ser nocivas a eles. E estava sendo.

Coisas estranhas vinham acontecendo, muitas mortes, acidentes, brigas…, talvez os deuses não estivessem satisfeitos com as mudanças, para muitos da comunidade, eles, os deuses haviam abandonado-os, para abençoar outros povos.

E ninguém podia fazer nada, afinal se era culpa dos deuses, como lutar contra.

Uma coisa em especial estava deixando Elena aflita. Inacio era um jovem muito querido por toda a cidade e num dia voltando de uma festa de moto, uma pedra rolou e o atropelou. Jonas conseguiu sobreviver, mas perdeu um braço.

Ali já era demais, mexer com uma pessoa tão forte, generosa, incapaz de fazer mal às pessoas, tinha sido a gota d´água.

A partir daquele dia a tristeza e decepção que já vinha mexendo com a cidade a tomou de vez.

Mas havia uma parte desta história que Elena não contou a ninguém, e ela era a única que sabia.

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Ela estava nesta mesma festa e como sempre tomou algumas bebidinhas tentando esquecer o estresse e curtir a noite. Uma das novidades que a internet trouxe foi que a bebida alcoólica não precisava ser usada apenas nas refeições, podia também ser usada nas festas e em maior quantidade, e assim a felicidade era ainda maior.

Terminou a festa, ela pegou o carro e voltou pra casa. No meio do caminho se sentiu meio tonta e começou a manobrar o carro pra parar num canto, porque não queria ser vista daquela forma, mas bateu o carro numa pedra que estava sendo colocada num pedestal para enfeitar a cidade.

A pedra tinha sido colocada ali a algumas semanas, mas não tinha sido fixada ainda e com a batida rolou.

No outro dia, Elena ficou sabendo que Jonas, seu amigo tinha sido atingido pela pedra.

Todos lá sabiam que beber e dirigir aumentava o risco de acidentes, mas não importava muito o que fizessem, tinham deuses para protegê-los.

Anteriormente eles usavam a bebida com muita moderação, então as consequências do álcool com volante era quase zero. Mas agora com o consumo maior as consequências estavam também maiores.

O tempo foi passando, e Elena se sentia cada vez pior de ver outra pessoa, ainda que um deus, ser culpado por algo que ela tinha participado.

Começou a se sentir culpada, mas avaliando os fatos viu que também aquela pedra não podia estar ali desafixada, poderia cair a qualquer momento. Tinha sido um ato de imprudência também.

Ela estava tão atordoada que resolveu chamar o conselho da cidade e pedir orientação.

-Vocês não acham que se perdemos a proteção dos deuses, precisamos começar a agir por nossa própria conta?

-Ohhhh!

Os conselheiros ficaram totalmente horrorizados com aquela insinuação. Como poderiam viver sem proteção dos deuses.

-Mas não fomos nós que os abandonaram, foram eles, fazemos nossa parte e quem sabe eles não voltam.

O conselho a ouviu, mas não via nenhum fundamento no que ela dizia. E o fato dela ter batido na pedra enquanto dirigia bêbada não os abalou em nada. Aquilo era consequência da falta de proteção dos deuses, não da bebida.

Mas na cidades todos podiam  dar suas opiniões e se o conselho não decidisse, ou não concordasse, o assunto era levado à população e quem quisesse, dava seu parecer até entrarem em um consenso.

Elena foi pra casa, ela sabia que precisava de uma metodologia para faze-los compreender o que ela estava sentindo, caso contrário nada mudaria. Passou a noite inteira planejando o que falar.

De manhã estava ela, tensa, mas certa que precisava dizer aquilo que estava sentindo.

Para sua surpresa, foi melhor compreendida pelo povo que pelos conselheiros, e descobriu que muitos estavam sentindo o mesmo que ela.

E foi Inacio que propôs uma mudança de atitude para evitarem tantas desgraças e quem sabe não cairiam novamente na graça dos deuses.

Eles começaram a agir como se tudo dependesse deles, e torciam para a volta dos deuses.

E em pouco tempo a cidade estava ainda melhor do que era antes. E eles descobriram que as bênçãos dos deuses e o esforço e responsabilidades de cada pessoa era uma parceria imbatível. E assim a cidade pode celebrar em cada início de ano os próprios feitos abençoados pelo poderoso deus do novo.

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E aquela fotografia era apenas inspiração para outras, porque não faltava olhos brilhantes e felizes e expressões abobalhadas diante do show de brilho que o novo fazia resplandecer no céu em todo início de ano.

Este é mais um conto de minha autoria, adoraria saber sua opinião.

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

Eu adoraria saber sua opinião.