Como Se Tornar Leitor – Guia para Iniciantes

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Antes de começar a falar de leitura propriamente, eu gostaria de uma introdução. Na verdade dizer porque me vejo autorizada a falar deste assunto, o que me habilita a estar aqui dando dicas de leitura. Vamos lá!

Como Me Tornei Leitora:

Eu nasci no interior de Minas Gerais, onde morei parte da minha infância, antes de mudar para São Paulo.

Minha família não era uma família de leitores, pelo contrário, ninguém tinha o hábito da leitura e eu estudava numa escola de interior onde não havia biblioteca.

Mais ou menos aos oito anos, um professor pediu que lêssemos um livro paradidático, a marca de uma lágrima, de Pedro Bandeira (um livro premiadíssimo).

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Estas informações eu tenho hoje, mas na época pra mim ele era apenas um livro e nada mais.

E foi este livro que marcou minha vida em antes e depois.

Comecei a ler a estória e aquilo era tão mágico pra mim, que era quase irreal. Eu não ouvia Isabel, eu era ela, ou era alguém sentada ali num banquinho assistindo-a enquanto ela quebrava e brigava com o espelho. Naquele momento ela era minha melhor amiga, eu a compreendia e ela me compreendia.

Eu descobri em “a marca de uma lágrima” de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. Sim, eu estava ali sem televisão, sem muita gente ao redor, sem muita opção de diversão, mas eu podia ir para onde eu quisesse.

Foi aí que eu descobri que através dos livros eu poderia ampliar minha  realidade de criança do interior.

Não que lá fosse ruim, porque não era, subir em árvores, pegar frutas no pé, brincar na rua era incrível, mas não o suficiente pra mim.

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A partir daí eu me tornei leitora voraz, devorava tudo que encontrava pela frente. E vieram inúmeros de outros livros.

E é esta experiência de leitura que quero compartilhar com você.

Ah, eu sou uma contadora de estórias, então as dicas estarão sempre recheadas de experiências, contos … estórias e mais histórias.

Então vamos às dicas.

  • Quem te deu autorização para ler este livro?

Sabe quando eu disse na introdução deste livro, o que me autoriza a estar aqui, falando de leitura

Pois é. Eu gostaria que você pensasse e talvez até escrevesse num papel porque você acha que está autorizado a iniciar uma vida de leitura, ou a ler este livro que você escolheu ou que irá escolher.

Você pode não estar entendendo onde quero chegar, mas vou explicar.

É muito importante se sentir autorizado a fazer o que você decidiu a fazer. E acredite não estou dizendo de autorização de direito, faculdades, diplomas que você tem ou outras coisas deste tipo. É claro que estudar é sempre muito importante.

Mas estou falando de autorização de fato. Você se sentir autorizado a fazer o que se propôs pela sua experiência de vida, pela sua vontade e pela verdade que ninguém fará aquilo igual a você.

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Esta autorização é dada por você mesmo. É você que tem que se permitir.

Quantas vezes deixamos de falar sobre um assunto num grupo, partilhar nossas experiências por vezes até vitoriosa porque achamos que outras pessoas eram mais bem preparadas, o que desqualificaria nossas experiências .

Neste blog eu publico meus próprios textos literários, mas também resenhas, dicas de leituras… e muitas outras coisas.

O título do blog é cafecomestorias.com , um espaço informal de literatura.

Acredite, este espaço informal de literatura, foi a forma que eu encontrei de me autorizar a falar sobre aquilo que é essencial na minha vida, mas que tem muitos doutores por aí, que poderia com certeza passar muito mais conhecimento sobre o assunto.

Eu sou leitora, leitora diária, leitora mesmo, que devora três a quatro livros por mês, esta é minha rotina. Do tipo que sente abstinência dos personagens quando o livro acaba. Que não sossega enquanto não consegue fazer um amigo pelo menos começar a ler pra depois dizer que não gosta de leitura…

Livro é minha paixão, sou louca por eles.

E eu sou formada em Letras, mas às vezes ouço alguns especialistas ou mesmo escritores falando de literatura de uma forma tão distante que percebo que minha relação com livro é prática, de vivência, e não intelectual.

E pra ser honesta, uma literatura distante das pessoas pra mim é uma literatura inútil.

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Esta distância inibe muitas vezes as pessoas de se sentirem autorizados e capazes de pegar determinado livro e lê-lo até o final.

E esta autorização está ligada a autoestima, e isto é fundamental para uma vida de leitura.

Então, se autorize a ler aquele livro que você escolheu, ás vezes pode ter algum ponto nele que outras pessoas farão uma leitura muito mais profunda ou mais complexa, mas e daí, ninguém vai fazer a sua leitura, seja ela simples ou complexa.

Se aproprie do livro, se liberte de inseguranças, de preconceitos e mergulhe na estória.

Além de um prazer absurdo, você vai sair dali outra pessoa. Sim, porque ninguém lê um livro e continua igual. Alguma coisa sempre muda.

  • Não Crie parâmetros

Um dia eu cheguei na empresa que eu trabalhava muito feliz com uma bolsa nova que eu tinha ganhado no dia dos namorados, eu realmente tinha amado o presente, achado incrível.

Comecei a contar toda entusiasmada do presente para as colegas. Estava na metade da história, que com certeza estava mais florida nas minhas palavras que de fato aconteceu, chegou outra colega mostrando a chave do carro zero que ela tinha ganhado na mesma data.

Cortou meu barato. Eu que estava até aí exibindo minha bolsa, me achando o máximo com aquele presente comecei a quase escondê-la. E a vontade de contar pra todo mundo daquele presente passou completamente.

E pior, fiquei pensando comigo mesmo:

“É claro que ele está traindo ela, isto é consciência pesada… Marido nenhum da um presentão assim, sem ter culpa no cartório.”

E a culpa era grande, viu gente, porque era um carrão. Mas esta estória de traição era inveja minha, eles vivem juntos e bem até hoje. Kkkk

Esta história cai bem para o que quero dizer neste passo.

Às vezes você está lendo uma revista em quadrinhos, e se sentindo o máximo, porque é a primeira vez que você pega um livro e gosta da estória. E você está ali empolgadíssimo com os personagens incríveis.

Mas aí chega alguém com um romance filosófico na mão e diz assim:

-Revista é bom, muito bom, mas não é literatura, é entretenimento. Não que tenha problema, que algum seja mais importante que o outro. Não, de forma alguma, só estou definindo o que é um e outro.

Pronto! Você que estava se sentindo o leitor, que estava todo feliz com a iniciação à leitura, descobre que aquilo não passa de uma diversão.

É lógico que quem faz este tipo de comentário está querendo se firmar colocando você pra baixo. E se você entrar nesta vai deixar de lado a revistinha e começar a ler o tratado de Einstein.

E qual é o problema disto?

Você que tinha começado direitinho seu processo de leitura, sim, porque revistas em quadrinhos são ótimas opções para quem quer se iniciar à leitura. Tem figuras, textos em tópicos e além de muito gostosas de ler.

Mas você que estava indo bem, estaria logo conseguindo ler textos mais longos e de assuntos diversificados, começa investir em algo que você provavelmente não vai conseguir dar continuidade. Não agora.

Mas vai a dica.

Se conscientize do seu momento de iniciante e não entre nesta.

Não se compare a ninguém. Vá no seu tempo e leia por prazer, se você está gostando da leitura, é sinal que deve continuar.

Se comparar a outros leitores vai fazer você se esquecer de você, e leitura é uma experiência única, totalmente pessoal.

  • Escolha um assunto leve e que te agrada.

Este tópico é uma continuação do anterior. Ninguém começa a correr numa maratona.

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Primeiro treina o corpo, pega resistência, até quem sabe ganhar a maratona. Mas é preciso um processo antes. E é certo que talvez suas condições físicas, idade e outros fatores não permitirão a você ser campeão de uma maratona, ou tornará este processo bem mais difícil, mas nada impede você de estar numa maratona.

Então, é da mesma forma com a leitura. Comece a partir de você. Não adianta ir com muita sede ao pote, se você pegar de cara um livro muito grosso, ou de difícil leitura, ou de um assunto que não te interessa, certamente você vai desistir, e mais, vai ficar traumatizado, achando que leitura não é pra você.

No Brasil sabemos bem que a divisão não é justa, né? Nem todos tem direito a educação, à cultura, à uma vida digna. E este é um ponto que nos marca, marca principalmente nossa autoestima, e acabamos nos excluindo de muitas coisas, ficamos com medo de correr atrás daquilo que é nosso por direito. Deixamos que outras pessoas nos diga o que podemos ou não fazer.

E na leitura, acabamos vendo-a como um dom para poucos. Sabe aquela estória:

“Uns nasceram para estudar, outros não; uns nasceram pra ser leitores, desde pequenos devora os livros, você não.

Ouço muito isto: Você tem dom pra leitura, por isto que lê tanto, eu não.

Leitura não é dom, é hábito, é aprendizado, pode ser desenvolvido. Estas definições nasceu ou não nasceu para isto, ou aquilo, nos limita demais. É obvio que temos aptidões, mas ainda assim sempre temos o direito da escolha.

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E mais, o livro se aplicará a você seja qual for sua aptidão. Até porque existem livros variados, para todos os tipos de pessoas, da mesma forma que os escritores são variados.

Eu por exemplo, não leio porque é importante, leio porque eu adoro entrar em outros contextos, em outras realidades, nas vidas de outras pessoas. Poder ver outros pontos de vista, ser conquistada por alguns personagens, e odiar outros até a morte.

Se livro fosse uma droga, eu estaria perdida!

Então antes de escolher um livro, se limpe do preconceito e escolha-o porque você realmente identificou-se com aquele assunto e não por outros motivos, porque isto vai definir a qualidade da sua leitura.

Leitura é uma experiência única, livre e libertadora, e quanto mais você a fizer de forma prazerosa, mais rápido se tornará leitor assíduo.

De preferência nem comece por livros, comece por contos, por exemplo, que são curtos e de uma leitura fácil e gostosa.

Para conhecer meus contos clique aqui: Contos e Crônicas

Estas são minhas dicas de leitura, e você, gostaria de partilhar as suas? Vamos confabular?

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Meu nome é Meirilene Reis. Sou leitora desde os dez anos de idade, quando descobri em ” a marca de uma lágrima” livro de Pedro bandeira, de meu mundo acinzentado uma janela para um mundo colorido, vibrante e cheio de possibilidades. E escritora desde que descobri nas estórias uma forma de expressão, de comunicar o que não conseguia fazer de outra forma. E esta experiência estreita com os livros tem me mostrado que não há limites, para a imaginação nem do leitor nem do escritor, e isto me fascina. A literatura é pra mim um ponto, um eixo, onde em algum momento os mundos das pessoas se encontram, porque ali, tanto na leitura, quanto na escrita, nos despimos de preconceitos, e nos permitimos vivenciar a vida do personagem, que de alguma forma se encontra com a nossa.

Eu adoraria saber sua opinião.